Quanto à extinção da 6×1: Política desastrosa, não há outra definição!

Rodrigo Schimidt
Rodrigo Schmidt
Advogado, especialista em Direito do Trabalho
Aqui eu falo um pouco sobre tudo, tenho interesses ecléticos, sou entusiasta das ciências, artes e liberal social de extremo centro.

O texto aprovado na Câmara é basicamente "40h sem redução salarial e vedação da 6x1”.

A intenção é, como sempre, defensável — mas de boas ideias o inferno está cheio. 6x1 é realmente uma escala brutal para muita gente, mas constitucionalizar isso sem uma transição fina por setor, porte das empresas e produtividade é legislar no modo da marretada, nunca funcionou e jamais funcionará.

O que vai acontecer é óbvio:

"E sabe quem sentirá mais que todos esses? As classes mais baixas, os pobres cuja medida visa proteger[...]"
Rodrigo Schmidt
  • aumento de custo por hora;
  • mais informalidade;
  • redução de vagas em comércio e serviços;
  • repasse aos preços.

As grandes empresas não sentirão tanto, é verdade, já o boteco, o mercado pequeno de esquina, a farmácia de bairro, a clínica e o restaurante, isso vai cair como uma bomba atômica!

E sabe quem sentirá mais que todos esses? As classes mais baixas, os pobres cuja medida visa proteger! Eles sofrerão na carne e no bolso o aumento dos preços.

O correto teria sido algo gradual, com redução de jornada em transição, opção de negociação coletiva real, desoneração de folha, preservação de escalas especiais e combate ao abuso.

Agora, fingir que produtividade nasce por decreto é receita para o desastre.

Êêêê Brasilzão, até quando continuarás errando, mesmo quando acertas? uanto à extinção da 6x1: Política desastrosa, não há outra definição!*

Ditaduras e seus impactos

Rodrigo Schimidt
Rodrigo Schmidt
Advogado, especialista em Direito do Trabalho
Aqui eu falo um pouco sobre tudo, tenho interesses ecléticos, sou entusiasta das ciências, artes e liberal social de extremo centro.

Toda ditadura impacta a todos

Existe um problema que as pessoas não compreendem ou percebem com relação às ditaduras, noto especialmente quando vejo amigos dizerem algo como “o problema do Irã é para ser resolvido pelos iranianos”, “o problema de Cuba é para ser resolvido pelos cubanos”, “o problema da Venezuela é para ser resolvido pelos venezuelanos”.

TODAS as ditaduras, não importa se são de esquerda ou de direita, são um problema e uma ameaça ao mundo todo, porque elas jamais se restringem ao território que ocupam. Elas influenciam, interferem, seduzem, sequestram debates globais e frequentemente projetam poder para além de suas fronteiras, seja por ambição territorial direta, seja por subversão política e cultural.

Lorem ipsum dolor sit amet Lorem ipsum dolor sit amet, Lorem ipsum dolor sit amet Lorem ipsum dolor sit aTrocam tecnologias de vigilância, técnicas de censura, métodos de repressão e modelos de propaganda. Criam um ecossistema global de autoritarismo, exportando ferramentas de opressão.
- Rodrigo Schmidt

A Rússia há anos dissemina desinformação, propaganda e guerra híbrida contra democracias ocidentais, patrocinando extremistas de todo tipo, de nacionalistas isolacionistas a radicais de esquerda antidemocráticos. A intenção é sempre a mesma: desestabilizar o Ocidente, gerar desconfiança, corroer instituições. É um projeto ativo, contínuo e global. A invasão da Ucrânia não começou com tanques, mas sim com narrativas, infiltração e manipulação.

Na Venezuela ocorre algo semelhante, por serem um regime autoritário economicamente falido, eles também buscam expansão territorial (ameaçaram invadir a Guiana) e exercem influência desinformativa em toda América Latina, inclusive no Brasil.

Até mesmo regimes pequenos fazem isso. A Cuba passou décadas exportando doutrina, financiando movimentos e tentando influenciar países da América Latina. Não existe “Cuba cuida de Cuba”: ela sempre buscou moldar política em outros lugares.

O Irã chega ao ponto de patrocinar grupos teologicamente antagônicos, como Hezbollah (xiita) e Hamas (sunita). Isso parece absurdo apenas se alguém pensar que regimes autoritários seguem coerência ideológica. Não seguem. Eles seguem interesse estratégico. O objetivo é um só: destruir Israel e ampliar influência regional. Se isso exige financiar aliados improváveis, que seja.

Outro ponto ignorado: ditaduras aprendem umas com as outras. Trocam tecnologias de vigilância, técnicas de censura, métodos de repressão e modelos de propaganda. Criam um ecossistema global de autoritarismo, exportando ferramentas de opressão. Os extremistas brasileiros se comportam e seguem pautas idênticas aos extremistas europeus e estadunidenses.

É um condomínio internacional de tiranos.

Por fim, resta ainda a questão dos Direitos Humanos. É dever de todos os países civilizados promover a sua defesa. A desculpa de que “Direitos Humanos são assunto interno” não passa de um álibi conveniente para quem oprime. Fechar os olhos é permitir que a violação continue. É imoral acreditar que o sofrimento humano possui fronteiras geográficas. Democracias têm responsabilidade ética de se preocupar com ditaduras. Não por imperialismo, mas por prudência e por humanidade.

A minha geração será conhecida como a geração perdida pelo PT

Rodrigo Schimidt
Rodrigo Schmidt
Advogado, especialista em Direito do Trabalho
Aqui eu falo um pouco sobre tudo, tenho interesses ecléticos, sou entusiasta das ciências, artes e liberal social de extremo centro.

O PT assumiu o poder do Brasil no início dos anos 2000, bem no início da minha fase adulta, num momento em que o país tinha tudo para finalmente "dar certo". Estabilidade monetária recém-conquistada, inflação domada, dívida sob controle, instituições funcionando, credibilidade internacional. O terreno estava preparado. A corrida podia começar.

Desde então, o PT praticamente não saiu mais do governo: Lula, Dilma, Lula novamente (com um breve intervalo turbulento que não alterou o eixo central do projeto de poder do partido). E, ao que tudo indica, neste ano, dará Lula outra vez, uma vez que o bolsonarismo colocará no páreo Flávio Bolsonaro e um candidato de terceira via não têm a menor chance.

Isso significa que, pelo menos até 2030, ano em que farei 50 anos, ainda estaremos governados pelo PT.

"Talvez o julgamento da história seja ainda mais duro do que o meu."
Rodrigo Schmidt

Três décadas.

Durante essas três décadas, vimos outros países emergentes que estavam em situação pior que o Brasil nos despistar e decolar. Coreia do Sul consolidou-se como potência tecnológica e um dos melhores países do mundo. Polônia, Estônia e outros países do Leste Europeu modernizaram suas economias e instituições. Vietnã e Índia cresceram de forma consistente e até mesmo países latino-americanos menores conseguiram, com todas as dificuldades, avançar em produtividade, educação e inserção internacional.

E o Brasil?

O Brasil andou em círculos.

Crescimento médio pífio, produtividade estagnada, sistema educacional que não acompanha o mundo, infraestrutura cronicamente deficiente, ambiente de negócios hostil, Estado inchado, capturado, ineficiente. A cada crise, mais improviso; a cada bonança, mais desperdício.

Os defensores do PT costumam apontar os primeiros anos dos anos 2000 como prova de sucesso. Mas essa leitura ignora um detalhe essencial: aqueles breves anos iniciais do início do século XXI foram muito mais frutos das políticas do FHC do que do PT propriamente dito. Tripé macroeconômico, responsabilidade fiscal, câmbio flutuante, metas de inflação, abertura gradual e até mesmo o bolsa-família! O PT colheu o que não plantou e, assim que pôde, tratou de desmontar e corromper.

O mais correto, portanto, é dizer que tivemos um bom início APESAR do PT, não por causa dele.

Depois vieram a contabilidade criativa, a corrosão fiscal, o uso político de estatais, a expansão irresponsável do gasto, o desprezo pela produtividade, a romantização da pobreza como instrumento político, e, no fim, a maior recessão da história do país fora de contextos de guerra.

O resultado não é apenas econômico. É geracional. Uma geração inteira que entrou na vida adulta acreditando que o país finalmente “ia”, e que agora se aproxima da maturidade olhando para trás com a sensação incômoda de ter vivido num eterno “quase”. Quase crescemos. Quase nos tornamos relevantes. Quase aproveitamos o bônus demográfico. Quase fizemos as reformas. Quase fomos modernos.

Não fomos.

O que resta não é raiva. É algo pior: cansaço. Um cansaço silencioso, histórico, de quem percebe que o tempo passou, o mundo avançou, e nós ficamos presos a um projeto de poder que confunde Estado com partido e futuro com passado.

Talvez o julgamento da história seja ainda mais duro do que o meu.

Mas, para quem viveu isso por dentro, a sensação já está dada: não é só o país que envelheceu mal. A esperança também.

Ainda dá tempo

Ouvi outro dia alguém dizer: “Ah, agora só depois do Carnaval.”

Faltam cerca de 80 dias para 2026, e já decidimos que o ano acabou. Enquanto isso, as lojas já começam a mudar as vitrines e a exibir produtos de Natal. Nos supermercados, os panetones voltam às prateleiras. Talvez, por isso, haja a sensação de que não há mais tempo. Mas, será que o tempo acabou mesmo — ou fomos nós que desistimos de usá-lo?

Planejar nossa gestão de vida e tempo não é só montar planilha ou escrever metas no caderno novo de janeiro. É, acima de tudo, decidir o que merece continuar e o que é necessário mudar.
É entender que ciclos não terminam por conta do calendário, mas sim pela disposição de fazer acontecer. É ter a coragem de olhar para vida e dizer: “dessa vez, sou eu quem decido o que e como vai ser.”
Às vezes, o que falta não é tempo — é clareza e direção.

Pense comigo: o quanto da nossa energia em 2025 foi gasta apagando incêndios que poderiam ter sido evitados com um pouco de estratégia? Quantas coisas ficaram para “depois”, como se o depois fosse um lugar real e confortável?

Mas, olhando para o coletivo, dá para perceber que o improviso não é exclusividade individual.
Às vezes, parece que a cidade também segue adiando soluções e esquecendo que há urgências que exigem não só planejamento, mas execução imediata.

A gestão municipal tomou posse este ano com um plano de governo organizado para todo o mandato. Mas, mesmo com um planejamento estratégico a longo prazo, crises apareceram.
A Santa Casa de Uruguaiana é o exemplo mais evidente disso — o maior símbolo de saúde pública regional, precisou passar por intervenção e segue em busca de estabilidade, reabrindo setores, ajustando finanças e reorganizando atendimentos.

É uma lembrança prática de que, na vida — assim como na gestão —, planejar é essencial, mas sem ação, tudo permanece só intenção. Ainda há muita água para rolar neste ano. Oitenta dias. E não dá para deixar a vida levar como se o tempo não fosse a conta cobrar. Não há razão para adiar decisões, nem para empurrar planos para “depois do Carnaval”.

Tempo é oportunidade. Viver é também exercício de continuidade.
O ano não acabou.
Ainda dá tempo de planejar, executar e, se for necessário, recalcular a rota.
A questão é: quem, individual e coletivamente, está disposto a começar?

Genaina Baumart
Jornalista e escritora.
Especialista em marketing estratégico e comunicação assertiva e integrada.

Fala de vida, rotina e escolhas com a leveza de quem vê em tudo uma boa história para contar.
Nesta coluna, o leitor encontra o movimento das ideias e a delicadeza de pensar o sentido de ser.

SOMOS TODOS MARIA CORINA MACHADO!!!

Guerra tarifaria

Rodrigo Schmidt
Advogado, especialista em Direito do Trabalho
Aqui eu falo um pouco sobre tudo, tenho interesses ecléticos, sou entusiasta das ciências, artes e liberal social de extremo centro.

Nesta última sexta-feira, 10 de outubro de 2025, Maria Corina Machado foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz, um ato de justiça mais que merecido.

Machado poderia ter fugido do país e pedido asilo político em qualquer país europeu ou até mesmo nos EUA, certamente lhe aceitariam, mas não, mulher corajosa que é, permaneceu em sua terra e enfrenta, com coragem herculeana, a censura, a perseguição, inúmeras ameaças, a deslegitimação e até a cassação arbitrária de seus direitos políticos.

Chegam a rotulá-la como se fosse de extrema-direita, logo ela que defende casamento gay, legalização das drogas e do direito ao aborto… puro desespero ideológico.
- Rodrigo Schmidt

Sua luta é um ato que deveria inspirar todas as pessoas de bom caráter no mundo, pois ela dá voz a milhões de venezuelanos que fugiram da fome, da violência, da escassez e da brutalidade estatal de um regime que se diz "popular", mas governa à base de prisões políticas, tortura, repressão e eleições fraudadas.

Entretanto, lamentavelmente, o Brasil não emitiu uma nota sequer parabenizando esta heroína e parte significativa da esquerda latino-americana, especialmente a brasileira, permanece calada, ou pior, relativizando a ditadura de Maduro e divulgando teorias conspiratórias caluniosas a respeito de Maria.

Preferem fazer vista grossa à pobreza extrema, aos assassinatos de dissidentes, ao colapso sanitário e à maior crise migratória das Américas, por puro alinhamento ideológico. Para estes esquerdistas, a defesa de direitos humanos é uma mera opção eventual.

Chegam a rotulá-la como se fosse de extrema-direita, logo ela que defende casamento gay, legalização das drogas e do direito ao aborto… puro desespero ideológico. Tristes tempos em que a defesa da liberdade virou crime de heresia em certos círculos progressistas.

A verdade é que Maria Corina representa tudo o que o chavismo destruiu: democracia, dignidade e esperança. Seu Nobel escancara uma ferida que muitos tentam esconder debaixo do tapete da conveniência política. E quem ainda ousa defender Maduro depois disso, que carregue o peso da sua covardia ou cumplicidade.

Quem quer ser a vítima? – Por Tiago Rios Fagundes

coluna

TIAGO RIOS FAGUNDES
Engenheiro Agrônomo e empresário

Magnitsky parece que é o super trunfo da censura. O espadão. O Zap. O Coringa +4.
Se foi merecida ou não sua aplicação ao Min. Alexandre de Moraes é outro papo.
A lei, que até hoje havia sido aplicada apenas contra ditadores e genocidas, agora recai sobre um brasileiro.

Sim, ele nasceu em hospital comum, vibrou quando Baggio perdeu o pênalti, estudou em faculdade regular, tomou pinga e pitou na sexta-feira, prestou um concurso, depois outro, e assim — graças às graças que a vida graciosamente às vezes nos agracia — ocupou um dos cargos máximos do judiciário brasileiro. Contudo, no pleno gozo de seu vigor e força, defendendo a democracia, foi sancionado pelo Presidente americano. Um brasileiro sob Magnitsky... é “nóix”! Ele deveria se orgulhar do feito.

"Entre todos os signos presentes nessa epopeia brazuca, o do mártir é o mais cortejado[...]"
- Tiago Rios Fagundes

Muito improvável, entretanto, que ele tenha planejado tudo. Foi, no vácuo, tomando as medidas que o chefe precisou ao longo do tempo, fazendo o trabalho sujo, criando novas jurisprudências no processo e maculando ainda mais a já desgastada imagem do tal poder moderador.

Alexandre, para os íntimos, reinventou a Constituição — que, convenhamos, lá também não é grande coisa — para atender a interesses que parecem escusos, sempre com o endosso dos seus colegas de ofício e o apoio (ou o comando) do que podemos chamar de “deep state” brasileiro, ou de centrão mesmo, conforme o gosto do freguês.

Através de malabarismos retóricos e interpretações criativas da Magna Carta, somados a notícias falsas e investigações parciais que deram lastro ao espetáculo, cidadãos foram condenados com penas obviamente excessivas por crimes que não cometeram. Provas cabais de inocência foram ignoradas e criou-se, inclusive, uma figura até então inédita — e bizarra — do Ministro "Bombril": que acusa, investiga, julga e pune, tudo isso sentado na cadeira da vítima. O homem é polivalente mesmo.

Xandão, para os chegados, deve ser boa gente. Ontem, dia 30, foi visto no jogo do Corinthians e Palmeiras. E, já conformado com a derrota, fez o óbvio: mostrou o dedo do meio. Devemos condená-lo por mais esse excesso? A essa altura, estamos carecas de saber que ele realmente pensa estar protegendo as tais instituições democraticamente constituídas. E isso, embora hilário, nada mais é do que reflexo de sua identidade atual, forjada sob a toga — e sob um total de zero bulbos capilares ativos.

Xandy, para os amigos de infância, pensa ser o próprio “Malvado Favorito”, aquele que toma decisões difíceis “pela causa”, enquanto a caravana ladra e ele se posta como guerreiro incansável de uma batalha ingrata. Agora, punido por um recém-apresentado inimigo bem mais forte, entra em cena o inevitável “coitadismo”.

Entre todos os signos presentes nessa epopeia brazuca, o do mártir é o mais cortejado: o legalista perseguido, o jornalista exilado, o presidente preso injustamente, a manifestante condenada por pitar com batom — agora, o juiz sancionado. Nesse mar de narcisismo, todos querem ser vítimas. E o mais espantoso: todos acreditam piamente nas histórias que eles mesmos criam, que o coleguinha da carteira do lado confirma, sobre suas grandes atitudes, suas condutas irrepreensíveis, seus propósitos elevados. Ignoram ou distorcem fatos para criar o mundo em que sua história “cola”.

Olavão, grande mestre pitador contumaz e talvez a mente mais brilhante que este Brasil pariu, chamava isso de paralaxe cognitiva: o fenômeno em que o indivíduo distancia a forma como percebe algo da realidade da experiência. É canalhice intelectual no seu estado mais puro.

O Ministro Cabeça de Ovo, para seus detratores, mereceu a Magnitsky? Quem sabe. Mas talvez a pergunta mais pertinente seja: Ele fez tudo isso sozinho? Ele é o ditador do Brasil? Ou seria apenas uma ferramenta útil, servindo a um propósito totalmente distinto do que nos é mostrado? Vamos ter um canavial de Magnitskys, ou só estamos recebendo o “melzinho” pra cessar o choro enquanto a boiada segue passando?

Apesar das comemorações no país e das Möet Chandon estouradas por Allan dos Santos (de onde ele está exilado desde o governo Bolsonaro — pois é, né?), precisamos avaliar se essa patuscada toda soluciona algo para as reais vítimas: aquele que vai pagar o preço das taxas do laranjão, do desvio do INSS e do IOF que hoje vigora.

O circo é global. E o pão, cada vez mais escasso

🥊🇺🇸 vs 🇧🇷🥊 Tarifas de Trump – Por Rodrigo Schmidt

Guerra tarifaria

Rodrigo Schmidt
Advogado, especialista em Direito do Trabalho
Aqui eu falo um pouco sobre tudo, tenho interesses ecléticos, sou entusiasta das ciências, artes e liberal social de extremo centro.

A decisão de Trump de impor tarifas de 50% sobre exportações brasileiras não é simples retaliação contra Lula, nem fruto exclusivo de fatores econômicos, ou apenas influência bolsonarista. O jogo é mais complexo e envolve também disputas por terras raras*, plataformas como o PIX, retaliações políticas, sim, e o desejo de Trump de posar como o homem que “dobrou o mundo”, mesmo que isso já tenha se voltado contra os próprios EUA em negociações anteriores.

Lula, por sua vez, facilitou a retaliação, pois sua aproximação com Rússia, China, Irã, e todo e qualquer regime hostil ao Ocidente, somados ao sonho de uma ordem anti-dólar, desafiam frontalmente um dos nossos maiores parceiros comerciais.

"Tarifas desse porte reduzem entrada de dólares, elevam a inflação e obrigam o Banco Central a subir juros."
Rodrigo Schmidt

Provocamos quem não se provoca.

A nossa diplomacia tem tentado abrir portas no Partido Republicano, mas encontra barreiras e Eduardo Bolsonaro admite ser um dos que as fecham.

Todavia, é importante atentar que as tarifas também prejudicam os EUA. Setores como café e cacau já têm sinal para possível isenção, e é questão de tempo até que aço, laranja e outros produtos estratégicos pressionem pelo recuo.

No fundo, trata-se na verdade de um duelo de egos. Trump quer marcar território contra Lula; Lula não recua. A economia, porém, é implacável: tarifas desse porte reduzem entrada de dólares, elevam a inflação, obrigam o Banco Central a subir juros e geram pressão sobre reservas cambiais. O governo, inevitavelmente, terá de vender dólares e lançar medidas paliativas, mas isso apenas adia a conta.

Se persistirem, as tarifas acelerarão o isolamento comercial e empurrarão o Brasil para medidas populistas e protecionistas, tornando-o mais vulnerável. Ou se negocia cedo, ou se paga caro depois.

P.S. Na data de hoje, Trump já retirou da lista setores estratégicos: indústria siderúrgica, máquinas, derivados de petróleo, laranja e metais preciosos. Confirma-se o que se previa  o lobby interno dos EUA pressiona pelo recuo. Mesmo assim, o efeito já é sentido aqui: no Rio Grande do Sul, o preço do boi gordo caiu 5,4% em antecipação às tarifas sobre a carne.

• O que são “terras raras”: 17 elementos químicos essenciais para baterias, motores elétricos, turbinas eólicas, componentes eletrônicos, mísseis e equipamentos médicos. Apesar do nome, não são tão raros, mas sua produção é concentrada em poucos países — sobretudo a China — tornando-os estratégicos (o Brasil provavelmente possui a 2ª maior reserva do mundo deles).

• Isenção para café e cacau: segundo o Secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, commodities não cultivadas nos EUA, como café e cacau, podem ser isentas em futuros acordos, embora não haja confirmação específica para o Brasil.

Ele desceu do ônibus sozinho – Por Roger Baigorra Machado

Foto Escritor
Roger Baigorra Machado
é servidor público federal, trabalha na com Ações Afirmativas e Políticas de Inclusão na UNIPAMPA. Formado em História e com Mestrado em Integração Latino-Americana, foi presidente do CAC’S  FUNDEB e esteve duas vezes na Direção da UNIPAMPA, como Coordenador Administrativo. Atualmente, ele faz parte do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Uruguaiana e do Conselho Municipal de Educação.

Entraram na minha sala. Diante da minha mesa, o filho sentou com a mãe. Ele, silencioso. Ela, preocupada. A mãe contou do filho. Disse que ele tinha autismo, mas que era leve. Lembrou que o filho também tinha dislexia, contou da sua dificuldade em socializar e em demonstrar afeto. Falou que há quatro meses, ela vinha todos os dias com ele até a universidade. Enquanto ele assistia às aulas, ela esperava no saguão do prédio.

Contou-me que ela era mãe solo, desde que ele tinha cinco anos. O pai, assim que percebeu que o filho não era “normal”, foi embora. Hoje, está casado novamente. O meu objetivo aqui, eu disse a ela, é garantir que o seu filho desenvolva autonomia. Sim, é isso que eu quero, concordou ela. Que bom, eu concordei. Então, preciso que você não fique mais esperando ele no saguão, tampouco, que venha com ele até a universidade.

Como assim? Argumentou ela, com ar de espanto. Assim mesmo: não vindo. Ao longo da conversa eu mudei de assunto. Falei das adaptações que ele gostaria de ter nas aulas, dos sons, da luz, do barulho, das avaliações. No final, perguntei a ela qual era seu maior medo. Ela disse que era morrer, não pela morte em si, mas pelo filho que teria de viver sozinho. “O mundo não trata bem quem é diferente”, disse-me, com o olhar triste.

Então, eu peço que você não venha mais com ele. Deixe que ele experimente este mundo, especialmente, enquanto você está aqui. Permita que ele ande pelo caminho até a universidade, sozinho. Que suba no ônibus, que cuide do horário, que decore os caminhos. Deixe que ele crie suas próprias rotinas. Você gostaria? Perguntei a ele. Olhando para a parede, acenou positivamente com a cabeça.

Eu não vou conseguir, sempre estive com ele, disse-me ela com os olhos cheios de lágrimas. Consegue sim. O seu objetivo, enquanto mãe, é parecido com o meu, enquanto educador. Qual é? Quis saber ela. Queremos garantir que ele, ao final da faculdade, não precise nem de mim e nem de você. Que você seja desnecessária e eu também. Preparar nossos filhos para viverem sem a gente, isto é o que de melhor podemos deixar com eles, sobretudo, quando a gente já tiver ido embora.

Há três semanas eu o vejo chegando à universidade, descendo do ônibus, sem ela. Andando, sem medo e sozinho.