Deus não manda whatsapp – Por Bruno Sartori

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Bruno Ludwig Sarzi Sartori
tem 42 anos. É advogado pós-graduado em Direito Previdenciário. Presidente da Comissão de Seguridade Social da OAB Subsecção de Uruguaiana. De vez em outra é escritor e compositor.        

Numa manhã dessas fui a um velório. Tratava-se de um amigo de meu pai, conhecido por dedicar-se à família, trabalhador e muito camarada. Ir até aquele velório confessadamente foi um ato difícil em razão dos afazeres da vida.

“Os afazeres da vida”. Pensando bem, naquele momento, bem em frente ao caixão refleti que os afazeres da vida estavam frente a frente com um corpo, sem vida.

A briga mental entre a dificuldade de encontrar um tempo de ir até aquele velório e se concentrar no ato fúnebre entremeio ao “segura da mão de Deus e vai” foi se afunilando a tal ponto que, de repente, tocou o celular de uma pessoa, sendo que os segundos que se seguiram foram de um constrangimento para ela.

O som de um celular no meio de um velório é o demônio chamando, porque imediatamente os mesmos que olharam atravessado para a pessoa dona do celular tocante, se coçam e puxam seus aparelhos e tiroteiam suas mensagens nem lembrando mais do finado.

Eu também entrei nessa, pois o toque do celular foi o momento de reavivar meus compromissos e sair daquela viagem pensante momentânea sobre a morte e lembrar dos afazeres da vida.

A questão é: e quando seu celular tocar e for Deus chamando, o que realmente importará? Não adianta dedicares os melhores anos de tua vida somente aos afazeres da vida, porque se Deus te chamar, alguém fará no teu lugar. A cadeia segue, a vida segue, somos substituíveis nos afazeres, às vezes encontram melhores que nós.

Conciliar os afazeres da vida com os prazeres da vida ou com um mero ato solidário de ir até um velório é missão complicada nas poucas horas do dia, mas é tentável, alguns chamam de ponto de equilíbrio, para mim: uma batalha diária.

Seguiremos tentando, o problema é que, às vezes, Deus não liga, nem manda whats.

Ah, tu tinhas dúvida? – Por Tiago Rios Fagundes

ColunaII
TIAGO RIOS FAGUNDES
Engenheiro Agrônomo e empresário.

A diferença entre achar e ter certeza é abissal. Chega a essa conclusão qualquer pessoa que, por desinteresse ou por desesperança, durante anos, ignora a sombra do bode de bom porte que inegavelmente se encontra na sala e, quando sua presença é tão gritante e não há alternativa senão encará-lo, depara-se com a amedrontadora visão do problema que deve ser solucionado.

O Ministério Público de Contas gaúcho (MPC-RS), órgão pertencente à estrutura do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-RS), emitiu seu parecer a respeito das contas públicas do agora ex-prefeito Ronnie Colpo Mello. Um suspiro segue, e a leitura deste é, no mínimo, desconfortável para o pagador de impostos. Parecer desfavorável. “Ah, tu tinhas dúvida?”, poderia dizer um transeunte anônimo caminhando pelo calçadão e a resposta seria sim, tinha dúvidas: agora já temos algumas certezas.

Não vamos nos ater a todo parecer, tratemos do bode maior, o que realmente destoa e preocupa. Foram 84% de alteração da destinação de recursos, segundo MPC-RS, em comparação com o orçamento apresentado pelo Executivo e aprovado pelo Legislativo municipal no ano de 2022. Isso é o mesmo que, em uma empresa privada, fazer um plano de investimentos e, ao longo do mesmo ano, mudar praticamente sua totalidade.   

Descuido? Se dermos o benefício da dúvida podemos até entender que ao longo do tempo é natural que alterações sejam feitas frente às circunstâncias novas que se apresentam sempre, lembremos que estávamos em plena pandemia. Mas 84% de diferença soa bem difícil de ignorar.

Má fé? Esperamos que não, ora, são 8 anos de administração Ronnie, se formos por esse caminho levantaremos a suspeita que, sei lá, pode que tenham criado alguns créditos suplementares para festas populares, ou que faltam alguns planos de gestão e pareceres próprios dos conselhos deliberativos. Ou que alguns dados sobre licitações tenham sido suprimidos do sistema de maneira intencional, ou não atendimento de requisições documentais do próprio TCE-RS, dificultando a fiscalização. Mas quem somos nós pra julgar, o próprio TCE-RS deve fazer seu trabalho. Não há de ser nada, espera-se.

Em tempos de apresentação do Plano Plurianual do Governo Delgado, essas assimetrias orçamentárias não devem passar despercebidas. É a hora do atual governo mostrar “ao que veio” e cabe a nós, espectadores e únicos financiadores desse espetáculo tragicômico, rezar pelo melhor. Vamos arrumar a cama antes de tentar conquistar o mundo? Que tal?

Deus nos defenda.